Árvore e lazer são privilégios de quem?
- Alessandra Carvalho
- 16 de jan.
- 3 min de leitura
Quando falamos em áreas verdes, sombra, parques e espaços de lazer ao ar livre, a pergunta que surge é direta: quem realmente tem acesso a esses direitos na cidade do Rio de Janeiro?

Na Zona Norte e em parte expressiva da Zona Oeste, especialmente na faixa urbana situada entre os maciços da Pedra Branca, Mendanha e Floresta da Tijuca, a realidade é marcada por alta densidade demográfica, baixa arborização urbana e carência histórica de infraestrutura verde e social. Bairros como Méier, Madureira, Marechal Hermes, Bento Ribeiro, Jacarepaguá, Bangu, Realengo, Campo Grande e Santa Cruz concentram milhões de pessoas, mas oferecem pouco acesso cotidiano à natureza e ao lazer de qualidade.
Um território estratégico, mas negligenciado em Árvore e lazer
Essa região integra as Áreas de Planejamento 3, 4 e 5 (AP-3, AP-4 e AP-5) do município do Rio de Janeiro, que juntas representam a maior parte da malha urbana periférica da cidade. De acordo com dados do Instituto Pereira Passos (IPP), essas áreas concentram cerca de 45% da população carioca, com densidades que chegam a 17 mil habitantes por km² em zonas urbanas consolidadas.
Apesar de estarem inseridas em uma faixa estratégica do território metropolitano, delimitada por importantes unidades de conservação como: o Parque Estadual da Pedra Branca, o Parque Natural Municipal de Gericinó e o Parque Nacional da Tijuca; esses bairros convivem com escassez de áreas verdes, ilhas de calor, alagamentos recorrentes e rios altamente degradados, como os rios Acari, Pavuna e Meriti.
Entre florestas e concreto: a contradição urbana
Do ponto de vista ambiental, trata-se de uma região singular. O território funciona como zona de transição entre ecossistemas florestais, urbanos e costeiros, conectando os maciços florestais à Baía de Guanabara. Hidrograficamente, está inserido na interface entre duas regiões fundamentais:
Região Hidrográfica II – Guandu, responsável pelo principal sistema de abastecimento de água da Região Metropolitana;
Região Hidrográfica V – Baía de
Guanabara, que concentra mais da metade da população fluminense e ecossistemas sensíveis, como manguezais e lagoas.
Ainda assim, os cursos d’água urbanos seguem canalizados, poluídos e assoreados, comprometendo a regulação microclimática, a recarga dos mananciais e a qualidade de vida da população.
Árvore não é paisagem. É infraestrutura urbana
A ausência de árvores e áreas verdes nesses territórios não é apenas um problema estético. É uma questão de justiça climática e social. Árvores reduzem a temperatura, melhoram a qualidade do ar, ajudam no controle de enchentes, promovem saúde física e mental e criam espaços de convivência.
Quando bairros inteiros crescem sem arborização adequada, o lazer ao ar livre se torna privilégio, concentrado em áreas de maior renda e melhor planejamento urbano. Crianças estudam em escolas com pátios impermeabilizados, idosos enfrentam ruas sem sombra e comunidades inteiras ficam mais expostas aos efeitos das mudanças climáticas.
Por que essa região é prioridade para regeneração urbana?
Os bairros da AP-3, AP-4 e AP-5 reúnem características que os tornam estratégicos para ações de restauração urbana e ambiental:
Alta densidade populacional
Baixa cobertura vegetal
Proximidade com unidades de conservação
Presença de escolas públicas em contextos de vulnerabilidade socioambiental
Intervir nesses territórios significa ampliar o impacto positivo das ações, conectando arborização urbana, educação ambiental e recuperação ecológica.
A pergunta que precisa ser respondida
Se árvores e lazer são fundamentais para a saúde, o clima e a qualidade de vida, por que ainda são tratados como privilégio e não como direito urbano?
Pensar o futuro dessas regiões exige ir além do concreto. Exige reconhecer a arborização, os espaços verdes e o acesso ao lazer como infraestrutura essencial, especialmente nos territórios historicamente negligenciados.
É nesse contexto que a atuação técnica, territorial e social da Arborela se insere: promovendo projetos de restauração urbana, educação ambiental e regeneração ecológica onde o impacto é mais necessário, e mais transformador.





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